O susto nosso de cada dia

Mais de 60% dos acidentes de trânsito envolvem motociclistas

Você que dirige nas ruas centrais de nossa cidade, há de concordar comigo. Nosso trânsito é caótico, difícil, permeado por motoristas negligentes que não se dão ao trabalho de sinalizar mudança de direção; não acionam o pisca-pisca e exigem, de quem os precede, atenção redobrada. Mas o que mais nos assusta são os motociclistas. São raros os que obedecem a todas as regras de condução. No mais das vezes, ultrapassam pela direita, cortam a frente de outros veículos, passam pelo sinal vermelho e praticam toda sorte de manobras. Os entregadores que utilizam motocicleta, em especial aqueles que trazem uma caixa presa às costas, são os piores. Passam como foguetes, sem a menor preocupação com as normas de circulação dos veículos, pregando sustos a motoristas que não esperam essa conduta. A fiscalização é pífia e a educação desses garotos é rara, quando não inexistente. Recente pesquisa revelou que cerca de 63 por cento dos acidentes de trânsito ocorridos na cidade envolvem motociclistas. Os apelos das autoridades, as estatísticas sobre o tema e o exemplo de jovens mutilados ou que morreram em razão dessa loucura, não têm sido suficientes para impor, minimamente, os cuidados necessários à condução dessas máquinas pelos tresloucados motociclistas. É urgente, portanto, que as autoridades de trânsito adotem medidas severas para, ao menos, tentar se reverter esse cenário intolerável das nossas ruas.

Outro assunto que nos chama a atenção é o impressionante número de deficientes físicos que atulham as vagas especialmente projetadas para o estacionamento de veículos utilizados por esses motoristas, também chamados PCD (pessoa com deficiência). E, em alguns casos, a deficiência é tão sutil e imperceptível que pessoas, aparentemente hígidas e saudáveis, estacionam nas vagas especiais e desembarcam lépidas e saltitantes. É verdade que a legislação estabelece um grande rol de males e doenças que implicam no reconhecimento de deficiência, que incluem, dentre outras Artrite Reumatoide, autismo, doenças degenerativas, neurológicas, amputações, encurtamento de membros, escoliose acentuada, esclerose múltipla, linfomas, lesões por esforço repetitivo (LER), retirada da mama, nanismo, problemas da coluna, nos joelhos, poliomielite e tantas outras que seria fastidioso enumerar. Tais males, se clinicamente comprovados, facultam aos interessados a compra de veículos com substancial desconto no preço, a isenção do IPVA e outros privilégios, como o estacionamento em locais restritos. Mas, ainda assim, o que se vê é o exagero no número de pessoas que se autoproclamam deficientes físicos e que buscam essas facilidades. Aliás, as empresas revendedoras de automóveis anunciam com destaque as promoções na venda de veículos para pessoas deficientes. Estima-se que um quarto dos motoristas habilitados no país teriam o direito a serem reconhecidos como deficientes, porque certamente sofreriam de uma das doenças que constam no imenso rol, apontadas como causa de deficiência. Confesso que nunca imaginei que em nossa cidade houvesse tantos deficientes físicos e que nunca demonstraram qualquer anormalidade na condução de seus veículos.

Décio Divanir Mazeto é Juiz de Direito

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