Sabinada

O escritor, o filósofo e o cronista, embriagados de retórica em um boteco carioca
Dois amigos estão num botequim no centro do Rio de Janeiro. Já é tarde da noite.
- Você deveria escrever uma tese – diz o acadêmico.
- Não sou acadêmico, Térsio. Escrevo literatura, só isso – retruca o escritor.
- Pois então por que você não escreve um romance? Algo que mesclasse o existencialismo francês com a situação do nosso país nesta década de cinquenta?
- Porque não sou existencialista nem pretendo elaborar um romance.
- O que você é, então? – questiona Térsio, o doutor em filosofia.
- Sou escritor, apenas escritor – diz Fernando.
- Mas que raios de escritor é você que não almeja a construção de um romance?
- Veja bem, Térsio. Escrevo como um fotógrafo, minha missão é registrar o fugaz. Não quero compromisso com personagens.
- Compromisso com personagens?
- Sim, não quero me ver em ficção.
- Mas Fernando, é apenas ficção o que você produz!
- Não produzo ficção. Se assim parece, é que o registro do momento atravessa qualquer barreira entre mim e o mundo lá fora.
- De qualquer forma, você está construindo um alter ego.
- Discordo. Somente descrevo. Minha escrita é uma descrição. Nada mais!
- Ainda insisto na ideia do romance – persiste Térsio.
- Escute, filósofo! Não quero sustentar nada: tese, personagens, narrativas longas, quero apenas ser eu mesmo!
- Fernando, você escreve bem. Deveria se aprofundar no seu trabalho.
- Eu não escrevo, eu descrevo!
- Eis o paradoxo: você diz que não escreve, que apenas descreve mas, para isso, você tem de escrever! – graceja o amigo, professor da faculdade de filosofia.
- A escrita que eu chamo de descrição do mundo é um modo sui generis de dizer que não quero interferir na realidade, Térsio.
- Interessante. Isso já é uma tese.
- Não é tese, é minha convicção.
- Meu caro Fernando! Chegará um tempo em que este nosso diálogo será lido por acadêmicos que escreverão seus trabalhos em cima de nossa conversa e de sua escrita/descrição do mundo. Pode ser que isso demore, que aconteça lá pelo ano dois mil, mas há de ocorrer!
- Pura futurologia de sua parte. Ninguém lê, amigo. Até lá, não haverá mais leitores.
De repente, ouve-se uma voz que não se sabe de onde vem:
- Muito menos leitores de crônicas – interfere o cronista que escreve este diálogo.
- Pois é, cronista. Você e eu padecemos do mesmo mal: o mal da escrita! – conclui Fernando.
- Mas saia do nosso papo, cronista de uma figa. Você nem nos criou. Você nos roubou de outra estória e quer colocar palavras em nossas bocas! – grita Térsio.
O cronista se cala.
São três da madrugada. Os dois se retiram. Térsio vai à procura de outro bar. Quer se embriagar. Fernando volta para o apartamento, a duas quadras do boteco. Senta-se na escrivaninha e registra este diálogo, sem autorização prévia do cronista que está a narrar o que você agora lê, caro leitor.
Então o cronista resolve encerrar este texto e voltar para sua leitura de O Encontro Marcado.
Eis o que li num papel achado perto da praça, em frente à minha residência, no interior de São Paulo.
 

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