O robô da felicidade

Parece-me que as pessoas confundem cada vez mais suas satisfações materiais com a felicidade
Certa vez ouvi de uma professora que as pessoas só querem ser felizes, cada uma à sua maneira. Em princípio, estranhei tal raciocínio, pois existem diversas maneiras de ser feliz neste mundo, então? Foi o que pensei num primeiro momento. Fiquei um bom tempo matutando aquela afirmação e imaginando se todos os homens seguem um mesmo caminho que os conduza à felicidade. E concluí, ao observar a ação de diversas pessoas no cotidiano, que não há uma fórmula nem um caminho certo para que se atinja tão elevado objetivo na terra, que a maioria dos que buscam a felicidade o fazem por caminhos equivocados, e que muitos confundem a sensação de estar feliz com a felicidade plena.
E se não há uma fórmula para a felicidade, também não é fazendo qualquer besteira por aí que alguém chegará a conhecê-la em sua plenitude. E esse parece ser o maior erro das pessoas ao confundir suas inclinações mais imediatas com a tão almejada felicidade das novelas, como se alguém que cedesse aos seus instintos mais primitivos pudesse se realizar neste mundo sem sofrer as consequências de suas ações. No limite, este alguém poderia conseguir uma satisfação momentânea, como qualquer animal que se satisfaz em suas necessidades primárias. Nada além de fisiologia.
E conforme eu venho observando no dia a dia, parece-me que as pessoas confundem cada vez mais suas satisfações materiais com a felicidade, mas não me refiro àquela felicidade de que tratava Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, tema de estudos de ética, e sim ao consumismo barato mesmo. Dizendo a mesma coisa de forma diferente, é como se quanto mais eu possuísse, mais chances eu teria de ser feliz, com a confusão entre os termos felicidade e acumulação.
E aqui faço uma ressalva: a palavra posse é pensada no seu sentido mais comercial, isto é, possuir as coisas que se pode comprar numa ilusão de felicidade. Mas não se trata da posse de conhecimentos dos livros que se pode comprar – o que poderia conduzir alguns a uma espécie de felicidade como realização intelectual. Isso não interessa. O importante é ter algo que se possa ostentar sem esforço mental, como um par de sapatos, uma TV ou um aparelho celular, pois possuir conhecimentos, além de dar trabalho, exige estudo. E estudar também não é interessante, porque não se ostenta nada enquanto se estuda nem se é feliz.
No limite, passa-se a imagem do intelectual, o que está meio fora de moda nestas paragens, pois não vejo – na verdade, nunca vi – propaganda que mostrasse dois amigos discutindo a felicidade em Aristóteles enquanto apreciam uma boa cerveja gelada; ou comercial de vinho que exibisse um homem de certa idade, à beira da lareira, lendo Fernando Pessoa acompanhado de uma taça da bebida de Dionísio. Imaginem uma família debatendo o estatuto de racionalidade da figura de Cristo durante o Natal em um comercial no horário nobre – e o peru já frio sobre a mesa, esquecido por causa de discussão tão acalorada. Seria curioso, não é mesmo?
Mas a maioria busca, assim me parece, uma mera diversão barata: alegria fugaz enquanto efeito da vodca numa noite de inverno na companhia dos colegas de bar. E a frase da professora ressoa, neste exato momento, em minha cabeça: “as pessoas só querem ser felizes”.
Não, professora. Não creio que as pessoas só querem ser felizes. O que elas querem mesmo é uma sensação de felicidade, uma alegria barata, como um pileque de final de semana. Narcotização dos sentidos é o que querem as pessoas, porque só ser feliz é querer demais. E a infelicidade ninguém quer, embora seja a regra geral, a única real e presente independente do que as pessoas quiserem na vida. Do cara do boteco que pede pinga fiada ao milionário que bebe uísque envelhecido, todos desejam um fogo-fátuo nestes minutinhos chamados de vida.
Uma luzinha a cruzar o céu à noite e que lhes dê uma pequena alegria, tal qual uma criança que vai à sorveteria com a avó, como se esse acontecimento – o passeio até a sorveteria, o ato de tomar sorvete, a companhia da avó – justificasse toda uma existência e fosse a própria razão da criação do universo. Não, isso não é querer ser feliz, pobre professora! Talvez a senhora estivesse falando apenas de si mesma; talvez desejasse um carro novo ou uma casa em Marília, por não aguentar mais viajar todos os dias de outra cidade até aqui. Talvez compensasse seu sofrimento com a ilusão de felicidade, como uma necessidade poética e metafísica que ainda embelezasse sua vida.
Mas já não sei mais no que pensar. Sinto pena e raiva ao mesmo tempo. A lembrança da frase “as pessoas só querem ser felizes” me custou caro – tentei tecer alguns comentários intelectualizados sobre essa afirmação, pensar na definição de felicidade, ser engraçado, e não cheguei a lugar algum. Agora estou cansado e chateado por não conseguir desembaraçar esse emaranhado de considerações que me vieram à cabeça nesta madrugada. E, no entanto, a imagem daquela professora não me sai da memória. Ela se apresenta como um robô que repete “as pessoas só querem ser felizes”, “as pessoas só querem ser felizes”. E eu vou ficando com pena desse robozinho irritante que não sabe dizer outra coisa...

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