O mundo mudou. E a educação?

A necessidade de uma nova ideia que vá além do ensino técnico e sistemático presente em nossas escolas
Dizer que o mundo não é mais o mesmo do século passado é chover no molhado. A vida humana vem passando por processos de fragmentação e desequilíbrio socioemocional, muito por conta das novas “realidades” as quais as pessoas têm experimentado. A evolução tecnológica é cada vez mais rápida e presente em nosso cotidiano e, com isso, muitos paradigmas estão sendo quebrados, nos colocando diante de diversas situações de mudanças de comportamento, pensamento e postura.
Diante das novas realidades, a educação, mais do que nunca, se posta como uma das esferas mais importantes – se não a mais importante – para o desenvolvimento humano. Importa, portanto, saber como a educação vem acompanhando as múltiplas mudanças e os diversos contextos que se impõe para que o processo de aprendizagem seja significativo e tenha o poder de equilibrar as relações humanas e sociais.
É nesse contexto que surge o conceito de Educação Interdimensional (EI), com uma ideia que vai além do ensino técnico e sistemático que historicamente está presente em nossas escolas. A EI objetiva um processo pedagógico que possa reequilibrar as relações humanas através da substituição do ensino tradicional por um processo de aprendizagem que valorize sentidos e sentimentos, equilibrando o desenvolvimento intelectual e emocional.
Fazendo um breve paralelo, podemos compreender as diferenças entre concepções de educação e seus objetivos. O que podemos chamar de Pedagogia Tradicional é um método focado no ensino, ou seja, nos métodos de como ensinar e o professor se individualiza como o centro do processo da educação. Cabe ao aluno ter disciplina e esforço, não havendo espaço para sua individualidade.
Essa prática se caracteriza apenas pela transmissão e reprodução do conhecimento, atribuindo ao estudante um papel inativo, de mero receptor. Essa pedagogia, que ainda está presente em nossas escolas, é definida pelo professor José Carlos Libâneo como uma preparação intelectual e moral e a escola assume somente o papel de formação com a cultura, uma vez que problemas sociais pertencem à sociedade.
Em meados do século XX, o Brasil foi palco do movimento chamado Escola Nova (já com representatividade na Europa), que trazia uma proposta diferente da Pedagogia Tradicional: o educando agora está no centro do processo de aprendizagem. O foco passa a ser o como aprender, buscando atividades práticas que possam fazer mais sentido para o estudante, tornando a aprendizagem significativa. Com base na teoria de John Dewey, o ideário da Escola Nova considera as diversidades e as individualidades dos estudantes, fazendo da educação uma reconstrução da experiência e da aprendizagem de dentro da vida de cada um.
Contudo, diante de tantas mudanças (tanto sociais quanto das propostas pedagógicas), chegamos atualmente na proposta da Educação Interdimensional – que já constava na Lei de Diretrizes e Bases 9394/96. Ela visa, além do ensino técnico acadêmico, melhor gestão da vida e dos desafios de nossa realidade. A concepção da EI está constituída em elaborações do professor Antônio Carlos Gomes da Costa, em uma busca de recriação da educação, tornando-a panorâmica e transpondo os muros da escola. Para isso, o educando ganha papel ativo, não mais como recipiente passivo de conhecimentos e habilidades, mas como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso.
Ao invés de privilegiar apenas a dimensão da racionalidade (logos), a EI valoriza todos os aspectos do ser humano, a dizer, a corporeidade (eros), a sentimentalidade (pathos) e a espiritualidade (mytho). Dessa forma, a EI implica em uma mudança de conteúdos, métodos e gestão, tanto para professores quanto para gestores escolares, na busca de respeitar todas as manifestações da vida.
Sendo assim, o desenvolvimento pleno de nossas crianças deve estar no foco de nossas preocupações. Estamos em um tempo da necessidade de uma educação integradora das diversas dimensões do ser humano e a Educação Interdimensional é, portanto, a educação necessária.




Ivan Martins é Cientista Social e Pedagogo. Atuou como professor supervisor do PIBID em parceria com a Unesp de Marilia e, atualmente, é professor de História e Coordenador Pedagógico da Área de Ciências Humanas na Escola Estadual “Gabriel Monteiro da Silva” (Programa de Ensino Integral).  
 

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