O lado de lá do suicídio

Que espaços oferecemos para acolher o sofrimento humano?
O mês de setembro amarelou para abrir as janelas do quarto escuro do sofrimento profundo, mas discreto, de quem deseja desesperadamente morrer para livrar-se da dor da alma – é o Setembro Amarelo.
Fala-se das estatísticas assustadoras de quem atira contra a própria vida, mas pouco se reflete sobre o lado de lá dos que desistiram de viver. Eles não voltam para contar as “Treze razões” (seriado que aborda treze razões do suicídio de uma adolescente) e continuamos na ignorância confortável sem nada a fazer.
Podemos começar quebrando o silêncio sobre o assunto e saber que olhar e ouvir essa dor é fundamental para quebrar este ciclo holocáustico desta desesperança crônica. Estarrecidos, muitos expectadores do caos humano olham por esta janela do lado de fora, aliviados por acreditarem não terem este aposento escuro em sua “casa feliz”.
É nessa ingenuidade que muitos enterram seus queridos para o suicídio, por não imaginarem a dor extrema que acontecia por trás daquele sorriso bonito. Quem dera todos fossem resilientes e habilidosos em superar os dessabores da vida, mas não é assim.
Muitos acumulam feridas emocionais durante a vida, sem encontrar saída para seu desespero, adoecem em depressão ou outras doenças mentais até mais graves que levam a este fim. Existem suicídios à vista com golpe fatal ou a prazo, que acontece no alcoolismo, drogas e comportamentos arriscados.
O lado de lá do suicídio é um todo complexo. Não se trata só daquela pessoa mas da história, do contexto, da condição afetiva, da capacidade de inteligência emocional, da genética e até cultura dela. 
Conforme analisa o sociólogo Durkheim, “cada sociedade está predisposta a fornecer um contingente determinado de mortes voluntárias, e o que interessa à sociologia sobre o suicídio é a análise de todo o processo social, dos fatores sociais que agem não sobre os indivíduos isolados, mas sobre o grupo, sobre o conjunto da sociedade. Cada sociedade possui, a cada momento da sua história, uma atitude definida em relação ao suicídio”.
Perceba como que, olhando por este aspecto, pesa muito para o lado de cá. Hoje, a psicóloga referência maior no Brasil em combate ao suicídio declara que “o ser humano não tem espaço para sofrer, para falar de seus sentimentos inóspitos, a tristeza, raiva, angustia, decepção, frustração”.
“Então o que aconteceu com nossos jovens é só a ponta do iceberg do que tem acontecido com nossa vida. A gente não tem espaço para o sofrimento e que isso é do humano”, disse a pós-doutora da USP, Karina Fukumitsu, em entrevista na TV.
Neste prisma, ela escancara nossa condição social para dor humana na atualidade: o sofrimento sem espaço, sem ombro amigo. Muitos, só de ler o título do artigo correm para a próxima página. Evitamos a dor sim, principalmente a do outro.
Suicídio é a sentença para a sociedade que permanecer surda e indisponível a projetos que amparem a dor. Sim, faz tempo que o índice de suicídio é acobertado com o álibi de não estimular novas incidências, só que elas continuam exatamente porque as pessoas não são ouvidas, nem acolhidas. A maioria de suas vítimas dá sinais, despede-se, fala do desejo de morrer de várias formas. Lembro-me de um caso que a pessoa andou com uma cordinha no pescoço durante uma semana até que a usou. Há sinais claros que preferimos não enxergar.
Agradeça quando alguém falar desse desejo triste com você e ofereça ajuda, não crítica. Ofertando amor e acolhimento ao sofrimento podemos prevenir e praticamente sanar esse mal. Se olharmos com coragem para o lado de lá do suicídio podemos encontrar nossa maior falta ali, o amor. “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria. (1 Cor 13)”.
Infelizmente esta matéria está muito escassa do lado de cá. A que ponto chegamos, morrer de amor. Pouco valerão nossos projetos de contenção ao suicídio se não tivermos amor. Enquanto isso não acontece, quero motivar você a praticar o plano B do amor, amando o próximo como a ti mesmo, e assim poderemos executar o plano A de salvar vidas, que morrem por falta de amor.
 
Edilene Nassar é psicóloga, professora, palestrante e especialista em inteligência emocional. Contatos pelo (14) 98149-7242 e edilenenassar@hotmail.com

Compartilhe!
Deixe seu comentário

Veja
Também

Telefone
Diretor Comercial
Marcos Flaitt
(14) 99601-3070
E-mail
redacao@revistad.com.br
apoiorevistad@gmail.com
(14) 3221-0780
Siga-nos