O inferno niilista

Ninguém escapa à punição. Os próprios juízes são trocados por outros juízes que também condenam os que vieram antes deles.
Advogado de defunto não livra ninguém de cadeia. Nem réu, nem juiz estão isentos de pagarem suas penas. Todos são avaliados pelo grande tribunal. E ninguém escapa. Mas eu vejo os tolos se arvorarem juízes do destino alheio, quando suas vidas não passam de prisões, cujos carcereiros são vaidosos e terríveis em seu mister, por detrás da miséria de cada uma de suas vítimas, torturadas pelas inquietações de quem interpreta dois papéis.
O herói de hoje é o crápula de amanhã. Nada mais se pode sustentar, porque todos são suspeitos. E o corredor sem fim de portas cinzentas é percorrido por todos: mães, santas, soldados, mártires, generais, crianças, recém-nascidos, padres, freiras, o papa etc. Ninguém é mais inocente. O tribunal é para todos, até para os que não nasceram.
Os verdadeiros juízes ficam numa sala gigantesca e chamam cada um por uma senha. O réu se apresenta, diz o seu nome, recebe sua sentença e é encaminhado para uma salinha. De lá não sai mais. E cada pessoa chamada vai direto para a mesma portinha, onde fica a tal salinha de punição eterna.
Ninguém escapa à punição. Os próprios juízes são trocados por outros juízes que também condenam os que vieram antes deles. Há uma rotatividade de condenadores e condenados. E a portinha é sempre aberta para a entrada de um novo sentenciado. Todos os condenados vivem no quartinho, no qual sempre cabe mais um, que vai se adaptando às novas condições de vida insalubre, enfurnado no cubículo.
O quarto é fechado, sem janelas, com um calor abrasador e uma parede em que um filme sem fim é exibido ininterruptamente. Da tela do filme saem moscas enormes que pousam nas chagas dos presos, que vivem com os corpos tomados de larvas de outras moscas gigantes que virão. As pessoas sentem coceiras terríveis, sangram, e vivem cheias de feridas, maldizendo a vida que levaram antes de seu julgamento.
Todos se condenam antes e depois de se depararem com seus juízes, e esses também não escapam, embora escondam suas desgraças sob as togas, que vão ficando avermelhadas com o passar dos dias no cativeiro da eternidade maldita. De lá se vê tudo. E cada culpado é obrigado a suportar um duplo sofrimento: o seu e o dos outros.
Ao fundo, uma voz esganiçada de uma velha louca berra sem parar o nome dos ali presentes e seus pecados, levando-os a amaldiçoar os seus dias antes do chamamento para o tribunal. (Nesses momentos, os homens se lembram de todas as suas vilezas praticadas enquanto gracejavam da falta de sorte de seus irmãos, quando eram príncipes e os demais meros indigentes).
Ao mesmo tempo em que os prisioneiros sofrem seus castigos, sobre um mezanino presente no cômodo do suplício, Kafka e Dostoiévski discutem sobre a natureza humana, se ela é boa ou má, enquanto Rousseau anda de lá para cá maldizendo os seus colegas de confabulação. Esse diálogo interminável é entrecortado por bitucas de cigarros e escarros que recaem sobre as cabeças dos que já receberam as suas sentenças.
E os três homens de letras riem lá de cima da miséria da condição dos presentes suplicantes, que rogam pragas por serem homens, e não vermes, como os que sobem por suas pernas e entram em seus narizes e ouvidos. Rimbaud, também presente, ri de toda essa visão infernal enquanto bebe absinto e debocha da ingenuidade de Rousseau, que diz que algo está errado naquele lugar, pois o homem nasce bom e pode voltar a ser bom, mas Rimbaud simplesmente esbofeteia o filósofo com sua verve poética, bebericando a fada verde que o ilumina em ambiente tão fétido e diabólico.
E Cristo, que está na companhia dos grandes mestres, olha para Dostoiévski e pergunta: “e agora, homem atormentado, onde está a beleza que salvaria o mundo?”. Mas o gênio russo simplesmente dá de ombros enquanto pensa com seus botões: “eu me enganei quanto a este homem. Ele não é o Cristo que eu imaginara um dia quando publiquei O Idiota!”. Cristo ouve esse pensamento de Dostoiévski e sofre pelo fato das coisas terem tomado esse rumo.
- Não fui capaz de salvar a humanidade – lamenta-se Cristo, enquanto bebe uma taça de vinho.
Dostoiévski volta-se para Kafka e afirma:
- A natureza humana é uma porcaria, meu amigo. E você, Rousseau, pare de se lamentar, você não passa de um pobre filósofo doente!
Neste instante, um homem germânico de bigode enorme, com cabelos escuros e respiração ofegante adentra o mezanino. Todos se calam no pavimento. Cristo, ao ver o alemão de bigode, abaixa a cabeça e tristemente pensa: “este homem estava certo. Meu Pai está morto há muito tempo”.
O novo integrante do grupo do mezanino olha lentamente tudo ao seu redor com seus olhos azuis ensandecidos. Ele não aceita tamanha degradação. Então começa a resmungar feito uma criança alguma coisa em sua língua, algo do qual só se compreende uma contagem muito sofrida até o número quatro:
- Eins, zwei, drei, vier!
O homem em questão era Nietzsche.

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