O fenômeno da superdotação

A realidade estatística de brilhantes alunos que pouco reluzem às vistas de uma sociedade míope aos próprios talentos nas escolas
Os estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) compõem o público-alvo da Educação Especial, juntamente com os de Deficiências e Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD). Segundo a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008, esses têm direito a identificação e atendimento por meio de serviços educacionais especializados, que podem ser oferecidos pelos municípios e/ou estados.
A Educação Especial é uma modalidade que traz para a discussão os aspectos mais frágeis da educação no Brasil. Os pesquisadores da área vêm unindo esforços em suas reflexões, com vistas ao avanço do conhecimento e posterior implementação de um sistema verdadeiramente inclusivo, no qual todos os estudantes, independentemente de suas necessidades, tenham a oportunidade de aprender à medida de suas potencialidades.
Dentre os estudantes que constituem o público-alvo da Educação Especial, os alunos com AH/SD não são aqueles que mais recebem atenção por parte da mídia, das políticas governamentais para a educação ou mesmo da comunidade acadêmica. Contudo, nota-se uma tendência de crescimento nos estudos relacionados a essa temática.
De acordo com o censo demográfico do IBGE de 2010, o Brasil tem por volta de 209 milhões de habitantes, sendo que 48 milhões estão em idade escolar e matriculados nas redes de ensino. Desses, 22.161 estão registrados como estudantes com AH/SD, o que representa apenas 0,04% do total.
Quando tratamos das estimativas probabilísticas mais conservadoras, temos em torno de 3 a 5% desses estudantes na população escolar, o que nos revela o quanto precisamos avançar nesse aspecto.
Não há consenso na literatura sobre quais características identificam as AH/SD. Hellen Winner e Joseph Renzulli, renomados pesquisadores da área, elencaram comportamentos que seriam indicativos da existência desse fenômeno. Para Winner, a precocidade (quando a criança começa a realizar tarefas comumente impossíveis para as crianças da mesma idade), fúria por dominar e necessidade de fazer as coisas ao seu modo seriam determinantes na identificação. Já na visão de Renzulli, criador da Teoria dos Três Anéis, os comportamentos que vão diferenciar uma criança com comportamento superdotado são: envolvimento com a tarefa, criatividade e habilidade acima da média.        
Além do desconhecimento sobre as especificidades que marcam o fenômeno da superdotação, os mitos constituem mais um fator que dificulta o processo de identificação e avaliação de estudantes com AH/SD e o encaminhamento para serviços especializados. Ao contrário do que muitos pensam, os estudantes com AH/SD necessitam de acompanhamento educacional especializado, a fim de que possam desenvolver suas habilidades na íntegra, e tanto os pais quanto os profissionais da educação devem se instrumentalizar para saber trabalhar com essa realidade, a qual que pode trazer inúmeros benefícios para os novos tempos, de modo que as crianças de hoje tenham suporte para se tornar os promotores do desenvolvimento tecnológico, cultural e educacional da nossa nação. Ter conhecimento teórico e as corretas estratégias pedagógicas para mediar a aprendizagem de estudantes tão habilidosos torna-se essencial também para evitar erros de diagnóstico, o que pode trazer consequências terríveis, como a medicalização de crianças brilhantes, com consequente diminuição da criatividade.
Devemos sempre considerar que atender aos estudantes de acordo com suas necessidades e habilidades pressupõe muito mais do que oferecer um ensino de qualidade: faz-se necessário tratar cada um conforme suas diferenças, de maneira a garantir um ensino baseado na equidade.


 
Clarissa Maria Marques Ogeda é pedagoga e mestranda em Educação na
Faculdade de Filosofia e Ciências- FFC/UNESP/Marília
 

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