Luiz Peixoto

Embebedado de si mesmo, o velho jornalista já não redigia suas melhores notícias no amor
Já era tarde da noite quando Luiz adentrou aquele botequim perto da Paulista. No estabelecimento, somente um casal que conversava entre um beijo e outro. O garçom já guardava copos e garrafas mas, ao avistar o cliente que acabava de chegar, dirigiu-se a ele com ar cansado de quem sabe que seu mister nunca termina. Luiz pediu um uísque, mas não uma dose. Ele pediu uma garrafa inteira e um copo. Bebia à moda cowboy, como nos filmes do Clint Eastwood.
Não queria saber de ninguém na sua vida desde que fora abandonado pela esposa, que o trocou por um rapaz de vinte anos, recém-chegado na carreira do jornalismo esportivo e que se destacava por sua capacidade de conquistar multidões com suas narrativas. Luiz, pelo contrário, estava na casa dos quarenta, escrevia semanalmente para o Jornal da Central, tinha seus leitores, era admirado no meio jornalístico, porém não tinha condições de competir com o jovem que lhe roubara a esposa. Sentia-se um caco. E bebia diariamente para amansar a sua dor de homem traído. Quando entrara no bar, ainda estava sob efeito da vodka da noite anterior. Essa era a vida de Luiz nos últimos três meses: bebia como se o seu destino fosse estar de pileque.
O garçom, mesmo cansado, resolveu puxar prosa com o novo cliente:
- O senhor está bem?
- Estou me sentindo ótimo com esse White Horse – respondeu Luiz displicentemente.
- Sou um grande fã do que o senhor escreve – disse o garçom, insistindo na conversa.
- Escrevo porque preciso de um trabalho para pagar minhas bebedeiras. Não creio que meus textos sejam tão bons para que eu tenha fãs – resmungou o jornalista, com jeito de quem já estava de fogo.
- Sua escrita é ótima, Luiz Peixoto – tentou animar o garçom.
- Como você sabe meu nome? – perguntou o atônito Luiz, já completamente fora de órbita.
- Ué, como já disse, acompanho seus textos! – exclamou o garçom surpreso.
- Ah, sim – concordou Luiz, num átimo de lucidez.
O casal levantou-se da mesa, foi até o garçom:
- Quanto deu? – perguntou o homem, com voz jovial.
Nesse instante, Luiz voltou-se para os namorados e, para sua surpresa, era sua ex-mulher com o rapagão do jornalismo esportivo.
E aí, Luiz, bebendo muito? – disse o rapaz em tom de mofa.
Ô garçom, vê um café bem forte para esse cara – arrematou o jovem jornalista, que pagou a conta, incluindo o café, e saiu às gargalhadas com sua companheira.
Luiz ficou arrasado, os olhos marejados. Desandou a chorar como uma criança que tivesse se perdido dos pais.
- Aqui está o café – disse o garçom, com pena de seu herói fracassado.
- Pode tomar, meu jovem. Daquele patife não aceito nada, nem uma xícara de café! – esbravejou o velho Luiz, que também resolveu deixar o bar com a garrafa de uísque na mão.
E o velho jornalista saiu cambaleando em direção a uma praça...
Luiz perdera a esposa, não a dignidade.
Eis o que me relatou Luiz Peixoto no dia seguinte, enquanto eu rascunhava esta crônica.

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