Crônica do barulho

Cada um reage de um modo a manifestações de ruído e suas pausas.
Ao longo dos meus trinta e três anos conheci muitos tipos, cujo pitoresco renderia alguns tomos de curiosidades e fatos inusitados. Uma espécie de Comédia Humana atualizada, marcadamente pós-moderna. Dentre esses personagens de carne e ossos, destaco, neste momento, a relação de certas pessoas com o barulho e o silêncio, pois, ao contrário do que se possa imaginar, a presença ou ausência de sons não é tão simples e evidente no cotidiano.
Cada um reage de um modo a manifestações de ruído e suas pausas. Tenho um parente que não suporta o silêncio. Ele vive com a TV e o rádio ligados o dia inteiro. Não usa computador. Só rádio e TV, mesmo. Mais nada, nem uma musiquinha de vez em quando – para ele, músicas não trazem deleite, somente aborrecimento. E isso acontece porque rádio e televisão fazem barulho, e esse meu parente adora uma zoada na orelha.
Imagino que ele se sinta em algum bosque como se estivesse a ouvir o som do riacho e o canto dos pássaros, tamanha é a satisfação dele com o ruído produzido pelos aparelhos que ele deixa ligados.
Quando eu apareço lá na casa dele, lá estão os aparelhos ligados, emitindo ruídos, o que nos obriga a um diálogo aos berros, como dois malucos num manicômio, e não nos entendemos direito porque nossa conversa – se é que essa loucura é conversa – é entrecortada pelos sons do seu rádio ou televisão. E essa não é a pior parte, não. O duro é quando ele pede para que eu fique quieto porque um assunto de suma importância – como a vida amorosa de um ator famoso – está sendo noticiada por esses programas de fofocas. Nessas horas, tenho a leve sensação de que teria sido melhor ficar em casa, acompanhado dos meus cachorros, que “falam” de forma mais compreensível do que esse meu parente.
Talvez ele não suporte o silêncio e a solidão, por isso a barulheira, suponho.
Eu confesso que detesto barulhos dos quais eu não consiga extrair um significado para a minha existência. Há sons desagradáveis para outros que me são muito tranquilizantes, e vice-versa. Por exemplo, eu detesto som de rádio e TV, mas adoro ouvir umas músicas barulhentas, esses rocks pesados da vida, que me trazem uma paz tão grande, uma sensação de alívio interior, de esvaziamento de tormentos na minha cabeça, que é como se eu tivesse passado por uma sessão de meditação ou uma massagem relaxante.
Os berros do João Gordo têm efeito terapêutico sobre mim. Constituem uma verdadeira espécie de tratamento para a minha alma. Para ser mais preciso, são os próprios cânticos celestiais entoados pelos anjos. E enquanto eu escrevo esta crônica, meus cães latem no quintal para algum bêbado que passa pela rua falando sozinho, e os latidos deles para o bebum também são extremamente tranquilizantes, uma terapia cinófila.
Aliás, não são somente esses barulhos que eu consigo lhes dar significado que me deixam relaxado. Também gosto do silêncio, especialmente o da madrugada. Nesse horário, eu também escuto os meus ruídos da verdade, só que na mais completa solidão, que me enche de presenças noturnas e me propiciam a constatação de que uma crônica vale a pena ser escrita como testemunho dessas filigranas que se concretizam em mais uma banalidade, a minha banalidade de escritor de sutilezas, as quais, na maioria das vezes, passam despercebidas para boa parte das pessoas em sua pressa de viver e morrer, porque elas não dispõem de condições de paralisar cada instante para observar com olho clínico seus pequenos silêncios e ruídos.
Apenas pressa, correria e falação histérica. Assim é o ramerrão das gentes nas cidades: uma espécie de televisão sem sinal, com aquele chiado durante os anos, até o seu findar num túmulo eloquente, depois do mutismo de suas vidas.
Mas essa questão de barulho e silêncio parece ir além deste plano. Bom, pelo menos é o que aconteceu com minha tia. Ela, numa época, começou a reclamar que ouvia parentes já falecidos que a acordavam no meio da noite chamando pelo seu nome. Ela ouvia com muita frequência as vozes da minha mãe e da minha avó, mãe dela. E a coisa só foi se agravando, até ela começar a ouvir o bater de asas de um suposto anjo caído que resolveu visitá-la durante a madrugada. Foi então que ela chamou um pastor evangélico para benzer com azeite a casa onde ela morava. Mas não era qualquer azeite. Tinha que ser azeite importado, espanhol, ou português, para que a assombração fosse embora de vez. Vai ver que o demônio era proveniente da Península Ibérica. Só pode. Mas creio que o pastor não era dos melhores, porque, depois desses ocorridos, minha tia passou a ouvir um homem que a chamava todas as noites. E o pior é que a cachorra da casa da minha tia também ouvia. Era muita assombração para uma espécie só. Então minha tia mudou de casa, e hoje eu não sei se ela ainda escuta vozes e bater de asas de anjos das trevas.
(Um conhecido meu do Estado do Paraná, que vivia na zona rural de uma cidadezinha de cujo nome agora não me lembro, certa vez encontrou umas velas vermelhas no caminho a pé até sua casa, na volta de uma festa junina, e resolveu evocar o diabo. Ele ficou uma hora chamando pelo maligno e nada. Foi o cúmulo do niilismo para ele: chamar o capeta e não acontecer absolutamente nada!).
Quanto a mim, nunca ouvi manifestações dessa natureza. A única voz que eu escuto é a do carteiro que traz alguma encomenda, geralmente livros que peço pela internet, mas confesso que para mim seria mais agradável ouvir vozes de assombrações do que os gritos histéricos de indignação seletiva do meu primo, que não aceita outro primo que escreve – para ele, o ato de escrever crônicas e o de não fazer nada dão no mesmo: vagabundagem pura.
Isso porque ele se considera grande leitor, embora leia apenas os famosos, porque esses têm um nome e, ao contrário de mim, são verdadeiros arquitetos das palavras, e não desocupados. Pelo menos não sou um leitor de nomes, mas de textos. Não ligo se o escritor é consagrado ou desconhecido. O peso do seu nome pouco me importa. Apenas ouço as palavras em meu espírito, e seu som também é uma verdade que me traz significados, tanto quanto os berros dos cantores de rock e o latido dos cachorros. E, por isso, escrevo, porque gosto das palavras em seu estado puro: grafadas num fundo branco, independente de seu autor ser famoso ou não.
E por aqui vou me despedindo, caros leitores, na esperança de que vós também aprecieis o trabalho com as palavras deste que vos escreve. Do fundo do coração, tenham ótimos dias!
Saudações, C. R.

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